Abelardo de Carvalho
Sabe-se que antigamente as famílias atiravam os loucos em
embarcações rio abaixo, como cargas insanas. Estas embarcações recebiam o nome
de A Nau dos Loucos. Ainda não existiam manicômios e a sociedade
implantou o sistema de isolá-los por intermédio da água. De cidade em cidade
eles eram rejeitados. Durante séculos, espalharam demência, divertiram as
crianças e assombraram a imaginação dos homens medievais. Naquele exato momento,
a água era o único e último território habitável. Por isso, pode-se dizer que a
água sempre foi coadjuvante da loucura, que água e loucura se relacionaram no
passado. Assim como se pode afirmar que hoje a loucura está vinculada às
estradas. O andarilho em sua nau de poeira, esta é a imagem poética da demência
moderna. Há quem diga também que os artistas e os loucos são irmãos
consangüíneos, que esquizofrenia e arte, delírio e inspiração são frutos do
mesmo impulso.
A melhor declaração neste sentido, nos foi dado pelo pintor
catalão Salvador Dalí: "A única diferença entre mim e o louco, é que eu não sou
louco". Vários artistas consagrados passaram por manicômios e muitos jamais
retornaram de lá, como a escultora Camille Claudel, cuja obra esteve exposta, em
1998, nas principais capitais do País. O pintor flamengo Hieronimus Bosch,
considerado por muitos o pai do surrealismo, deixou várias telas cuja temática
era a loucura. No acervo do Museu do Prado, em Madri, encontram-se as suas
melhores obras, dentre elas, o quadro A Extração da Pedra da Loucura.
"Bosch teve a audácia de pintar o homem tal como ele é em seu interior, enquanto
os demais se restringiam às aparências". Não há registros de que ele tenha tido
distúrbios mentais durante sua profícua existência, no entanto, não se pode
dizer o mesmo de outros artistas.
Vicent van Gogh, o mais celebrado de todos, na atualidade, passou
boa parte de sua vida se tratando com médicos psiquiatras, que não o entendiam
nem sequer reconheciam o seu gênio. Artaud, cuja originalidade de expressão se
situava em "estados cada vez mais perigosos do ser", provou na carne o
internamento psiquiátrico. No Brasil, Arthur Bispo do Rosário é o exemplo mais
clássico da consangüinidade entre esquizofrenia e arte. Trancafiado no Hospital
Psiquiátrico Juliano Moreira, onde passou 50 anos de sua vida, Bispo criou uma
obra sem precedente no País e talvez na própria história da arte. A lista de
artistas geniais que enfrentaram fases de sérias perturbações mentais é
vastíssima: Nijinsky, Qorpo Santo, Dostoievsky, Baudelaire...
Localizado no Rio de Janeiro, o Museu do Inconsciente é a prova
cabal de que os manicômios estão repletos de gênios. Nas últimas décadas,
viveram lá nomes como Fernando Diniz, Rafael, Carlos, Emygdio e muitos outros. O
acervo é incalculável. O Museu foi criado pela Dra. Nise da Silveira e inovou no
tratamento aos loucos. Ao invés de torturá-los com eletrochoques, buscou-se a
cura por intermédio da arte. Jung, que visitou o Museu, teria dito a ela: "Se
você não estudou os temas míticos, nunca poderá entender a pintura de seus
doentes". É que, para Jung, os arquétipos míticos são de cunho universal,
envolvem a realidade do homem e é por onde fluem as imagens do mundo
esquizofrênico quando o ego se esfacela.
A Dra. Nise, por sua vez, achava que, somente as ocupações que
servissem de meios individualizados de expressão, levariam à cura. O crítico de
arte Mário Pedrosa visitou o Museu na década de quarenta e ficou admirado com a
qualidade da produção plástica. "Uma das funções mais poderosas da arte é a
revelação do inconsciente, e este é tão misterioso no normal como no anormal. As
imagens do inconsciente são apenas uma linguagem simbólica que o psiquiatra tem
por dever decifrar. Mas ninguém impede que essas imagens e sinais sejam, além do
mais, harmoniosas, sedutoras, dramáticas, vivas ou belas, constituindo em si
verdadeiras obras de arte".
Fonte: http://www.twister.com.br/artesacra/manicomios.htm