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Entrevista - Parte I
Paule Thévenin: "Artaud ocupou toda a minha vida!" (entrevista)
Claudio Willer
Os quase 40 anos transcorridos desde a morte de Antonin Artaud (Marselha, setembro de 1896-Ivry, março de 1948) dão a perspectiva histórica para qualificá-lo como o principal maldito de nossa época. Para Foucault, depois de Artaud, não são mais as obras dos loucos e malditos que precisam justificar-se diante da psicologia, mas a psicologia, questionada, posta contra a parede, é que preciso justificar-se diante de tais obras.
Hoje é difícil distinguir quanto a criação coletiva, a invenção em cena, o primado do gestual e de todas as formas de comunicação não verbal e de ruptura da separação entre espetáculo e público correspondem a uma influência específica do seu teatro da crueldade ou são práticas comuns a todo teatro moderno. Outras manifestações - como a performance e a body art - têm em Artaud seu inventor, em palestras e apresentações que na época causavam escândalo e consternavam o público. Isso, para não falar do seu papel como referencial da moderna semiologia, da antipsiquiatria de Laing, da "esquizoanálise" de Deleuze e Guattari.
Essa contribuição gerou uma bibliografia gigantesca, caracterizando-o como um dos autores mais estudados e discutidos do nosso tempo - ele que abominava os literatos e afirmou que "toda escrita é porcaria", atravessados por imagens luminosas e frases com um extraordinário poder de síntese, onde a densidade, o delírio e a paixão se integram e se tornam uma só coisa.
Soma-se a isso uma biografia coerente, marcada por uma busca constante que inclui sua passagem pelo surrealismo (1924/27) e a ruptura por, na verdade, encarnar radicalmente as idéias desse movimento: suas iniciativas no teatro de vanguarda; sua revisão crítica da História e sua discussão do colonialismo em obras como Heliogábalo e nas palestras mexicanas: seu mergulho em outro universo; ao participar do culto do peiote dos Taraumaras: e sua tragédia, seu internamento por oito longos anos, de hospício em hospício, durante a guerra, na França ocupada, até ser resgatado em 1946, fisicamente acabado pelo sofrimento - ele, que sempre execrava os psiquiatras, declarando já em 1925 que "nós nos rebelamos contra o direito concedido a homens de sacramentar com o encarceramento perpétuo suas investigações no domínio do espírito", para reiterar em 1947, em seu Van Gogh, que "em todo demente há um gênio incompreendido cujas idéias, brilhando em sua cabeça, apavoram as pessoas, e que só no delírio consegue encontrar uma saída para o cerceamento que a vida lhe preparou". Talvez essa identificação de gênio e loucura não valha para todo e qualquer louco; mas vale para Antonin Artaud, como ele o demonstrou através de sua vida e sua obra.
Paule Thévenin colaborou intimamente com Artaud em seu período de maior produtividade, de 1946, quando readquiriu a liberdade, saindo do asilo de Rodez e transferindo-se como paciente voluntário para Ivry, nos arredores de Paris, até sua morte em março de 1948. Sua edição da Obra Completa (Gallimard) é um modelo de rigor e fidelidade.
Discreta (não deixa que a fotografem), Paule Thévenin vê criticamente a maior parte da enorme bibliografia sobre Artaud; reconhece a importância de estudos como os de Blanchot e Derrida, mas acha o discurso universitário limitado e redutor. É sintética e precisa nas afirmações, como em sua fala no encerramento do Evento Artaud: "Acho que todas as disciplinas - todas elas, a filosofia, a psicologia, a literatura, as artes - têm que interrogar-se a partir de Artaud". [C.W.]
CW - Como começou essa relação tão íntima com Artaud e sua obra?
PT - Já me perguntaram isso muitas vezes. Só posso dar a mesma resposta de sempre: um dia, depois que ele saiu de Rodez, depois da sua volta ao mundo livre, fomos vê-lo em seu quarto de Ivry. E ele começou a visitar-nos, de nós gostávamos da sua presença. Sempre havia um lugar para ele ficar, e Artaud sentia-se bem conosco.
CW - E isso se transformou em uma colaboração, um trabalho conjunto…
PT - Como ele vinha muito em casa e eu havia parado com os estudos, pediu-me que tomasse o ditado de alguns de seus textos. Isso aconteceu muito naturalmente. Artaud sempre, desde seus primeiros escritos, preferiu ditas seus textos: Heliogábalo, por exemplo, e alguns dos textos de O teatro e seu duplo, o que provocava erros de transcrição, erros auditivos que depois corrigi na edição das Obras Completas. Acabei aprendendo a datilografar para cuidar de sua obra. Van Gogh me foi ditado integralmente, o que levou cerca de dois meses, e não dois dias, como chegaram a dizer.
CW - Mas ele lia um texto escrito ou improvisava ao ditar?
PT - Geralmente escrevia primeiro o texto, depois ditava, mas ia modificando o texto enquanto ditava. O manuscrito dele é bem diferente da versão ditada. O único texto que ele não modificava eram as cartas.
CW - Na minha introdução dos Escritos de Antonin Artaud, eu digo que as cartas parecem ser sua forma preferida de expressar-se…
PT - Sim, as cartas eram seu meio preferido de expressar-se. Como a carta que escreveu para Jules Supervielle, que também era o artigo que este lhe havia pedido para a revista Sur… As cartas eram sua forma preferida de ultrapassar as barreiras que o impediam de escrever. A segunda parte dos textos sobre teatro balinês também é constituída por cartas.
CW - E há cartas a Henri Parisot, de Rodez, que para mim têm uma força especial…
Transcrito pelo Discípulo de Artaud às 18h03
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Entrevista - Parte II
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PT - As cartas a Parisot são outro problema. Elas foram escritas em Rodez, quando Artaud estava internado no asilo, em solidão total. Os textos que escrevia então eram para ele mesmo, sem intenção de publicar. Quando Parisot lhe escreveu (para tratar da edição da Viagem ao país do taraumaras), Artaud teve um interlocutor do mundo livre. Escreveu-lhe cartas para servirem de prefácio à edição dos Taraumaras e outras para serem publicadas à parte. Essas cartas dirigiam-se para um interlocutor e para o leitor. Artaud queria falar de tudo o que havia acumulado, de tudo o que se havia passado com ele durante aqueles anos em que esteve internado (de 1937 a 1946), e isso da forma mais penetrante, mais impactante. Ele sempre pôs muito de si nas cartas, eram parte de sua vida… As cartas para Génica Athanasiou, as que ele quis que fossem acrescentadas à edição de Suppôts et supliciations…
CW - E como começou esse trabalho de edição das Obras Completas?
PT - Quando Artaud morreu, estavam planejados quatro volumes. Para atualizá-los, ele havia planejado acrescentar textos recentes, com um traço da experiência dramática que viveu. Ele morreu quando isso estava em preparação. Então decidimos preparar a edição da obra completa, procurar todos os seus textos e colocá-los em ordem cronológica.
CW - Eu levantei a hipótese de ainda haver inéditos…
PT - Sim, ainda há inéditos. Por sua importância, eu fiz questão de acrescentar as cartas às Obra Completa, como meio de dar ao leitor o que era importante. Até agora, publicou-se uma grande parte. Um dia, será preciso publicar a correspondência completa. Há as dificuldades com a família, tudo isso, mas o importante é publicar o máximo possível.
CW - Então é um trabalho infinito.
PT - Sempre se acham mais cartas. Nas bibliotecas, universidades, com pessoas… Ainda faltam muitas das cartas desde sua volta a Paris até sua morte. Para mim, é um trabalho infinito! Já são 23 volumes! A cada nova edição acrescento cartas que foram achadas depois. Eu refiz todos os volumes, exceto o 10 e o 11, de Cartas de Rodez - que ainda podem vir a ser refeitos. Não sei se conseguirei terminar essa edição das obras completas até o fim de minha vida. Acho que nunca terminarei…
CW - Gostaria de ter um depoimento seu sobre Artaud, descrevendo-o como o via. Acho as descrições existentes de Artaud muito pesadas - como a de Anais Nin -, mostrando-o trágico, torturado o tempo todo…
PT - As pessoas são sempre más testemunhas e Artaud contou muito para mim, ocupou toda minha vida com seu texto. Não quero ser uma falsa testemunha. ,as quando vejo obras que o mostram como só paroxístico ou histérico, eu não concordo. A visão que tenho de Artaud é de alguém que sabia ser alegre, que também era capaz de divertir-se e de brincar.
Ele me tratava cerimoniosamente, como uma grande dama, me tratava por vous. Era sempre o vous, não aceitava o tu. Isso porque foi tutoyé (tratado por tu) durante os anos em que esteve internado - então o tu era penoso para ele. Mas mesmo isso, era capaz de comentar de um modo engraçado. No fim da vida, rejeitou todas as religiões e não suportava as manifestações religiosas. Quando Marie Casarés foi conhecê-lo, estava usando uma corrente com uma cruz, e Barrault pediu-lhe que a tirasse, pois iria desagradar a Artaud. E houve aquela ocasião no Flore, quando Abel Gance mandou um emissário procurá-lo. Gance já estava bem velho mas ainda queria fazer um grande filme sobre a vida de Cristo e convidou Artaud para trabalhar no filme. Artaud ficou furioso. Essas coisas, ele contava vituperado, mas também rindo, se divertindo.
Também houve o caso do coiffeur. Antigamente, era costume os homens fazerem a barba no coiffeur (cabeleireiro masculino). Artaud parecia um clochard (vagabundo de rua), sempre com o mesmo capote velho, e resolveu entrar no coiffeur e fazer a barba. Na hora de pagar, quis dar a gorjeta ao barbeiro, e este recusou, fez questão de não aceitar. E certa vez, Artaud perdeu a chave de seu quarto em Ivry e ficou rondando a clínica à noite, sem poder entrar. Então dois policiais, que o viram rondando, vieram saber o que estava acontecendo e acabaram ajudando-o a pular o muro. No dia seguinte, ele comentou: "Vejam, foram vistos dois agentes de polícia me ajudando a pular um muro…" Ele contava essas coisas rindo, alegremente.
CW - Essas conjurações e feitiçarias de que Artaud fala nas Cartas de Rodez, no Van Gogh, a magia negra contra os poetas malditos… Até que ponto ele acreditava mesmo nisso ou para ele eram apenas metáforas?
PT - Não há limite entre os dois, metáfora e realidade. a história de Artaud é exemplar, é a história de uma entreprise, de uma ação maléfica contra um homem. Isso é muito forte no nível do símbolo e é real de um certo modo. Por ser forte e ser real, tem um sentido. É preciso prestar atenção, é preciso tomar cuidado: sempre há algo de real nisso tudo. |
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Claudio Willer (São Paulo, 1940). Poeta, ensaísta e tradutor. É um dos editores da Agulha (http://www.revista.agulha.nom.br/ageditores.htm). Entrevista originalmente publicada no jornal Leia (São Paulo, junho de 1986). Página ilustrada com obras do artista Víctor Chab (Argentina). |
Transcrito pelo Discípulo de Artaud às 18h02
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Espetáculo baseado no Teatro da Crueldade
 "Violência", de Alejandro Ahmed, estreou em Berlim
A crueldade do movimento
A quarta estréia do festival "Brasil Move Berlim" ficou por conta do grupo catarinense Cena 11, que trouxe ao palco um espetáculo polêmico e sem concessões ao gosto convencional.
Com capacidade para mais de 200 pessoas, o Theater am Halleschen Ufer, em Berlim, estava repleto e a impressão que o espetáculo do grupo catarinense causou pode ser descrita com o termo tipicamente alemão atemberaubend, algo como "de tirar o fôlego". Assim que começa o espetáculo, tem-se a impressão de que o público prende a respiração, inquieto e atônito com o impacto dos movimentos bruscos e quedas.
"Violência" não é novidade em palcos brasileiros, mas trouxe a Berlim uma imagem do Brasil que não corresponde exatamente àquela com que os alemães costumam associar o país, bem de acordo com a proposta da organização do festival de fugir aos clichês. Não há momentos "agradáveis" na encenação. Com gestos agressivos e incômodos, o espetáculo provoca e é incômodo, ao mesmo tempo em que prende o espectador com ótimas trilha sonora e projeções multimídia.
Dirigido pelo coreógrafo Alejandro Ahmed e sediado em Florianópolis, o grupo inspirou-se no teatro da crueldade, postulado pelo dramaturgo francês Antonin Artaud. Em "O Teatro e seu duplo", Artaud critica a rigidez do teatro europeu e a pobreza emocional causada por sua dependência ao texto, em contraponto ao teatro oriental. Ele salienta a importância de recuperação da catarse nos palcos, transferindo o enfoque da oralidade ao corpo. O mesmo princípio usou o Cena 11 para tratar da banalização da violência.
Entre a palavra e o castigo
Vestidos de uma moda típica da década de 90, misturando estética electro-punk e goticismos à la Marilyn Manson, os dançarinos vêm ao palco equipados com esses aparelhos que os dentistas usam para manter aberta a boca dos pacientes. Com movimentos bruscos, lembrando às vezes mais uma luta do que uma dança, o outro se torna no palco um objeto. Eles se chocam uns com os outros, se lançam ao chão e contra as paredes: dificilmente o espectador fica indiferente, a reação é quase sempre de espanto.
Um bailarino, com algo que lembra muletas longas presas às mãos e às pernas movimenta-se de modo assustador, evocando ora uma enorme aranha, ora uma forma alienígena, em coreografias tão tensas quanto arriscadas. Do alto sobre a platéia, uma voz feminina canta. Até que descem placas de acrílico transparentes, colocando-se entre público e dançarinos, trancando o grupo em uma jaula ou vitrine.
Dança do avesso
O espetáculo do Cena 11 é quase uma dança do avesso. Às vezes, o espetáculo parece mais bem concebido do que executado, com movimentos quase "pubertários". No entanto, essa impressão desaparece quando se tem em conta que seria cínico pensar em uma estética da violência. Fato é que a busca pela leveza dos gestos, pelo controle absoluto do movimento e sua beleza - elementos que encantam na dança - simplesmente dá lugar à feiúra e à dureza da queda, do impacto, da velocidade.
A trilha sonora é composta, com poucas exceções, por sons eletrônicos e industriais, entre outros de Marilyn Manson, que, na mesma noite, do outro lado da cidade, tocava solo e acústico. O grupo brasileiro convenceu, com sua provocação, e o público berlinense retribuiu com aplausos calorosos.
Rodrigo Rimon Deutsche Welle www.dw-world.de
Fonte: http://www.artesdoispontos.com/foco.php?tb=foco&id=4
Transcrito pelo Discípulo de Artaud às 17h54
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Surrealismo
NO TEATRO
O dramaturgo francês Antonin Artaud é o maior representante do surrealismo no teatro, através de seu teatro da crueldade. Artaud, buscava através de suas peças teatrais, livrar o espectador das regras impostas pela civilização e assim despertar o inconsciente da platéia. Um das técnicas usadas pelo dramaturgo foi unir palco e platéia, durante a realização das peças. No livro O Teatro e seu duplo, Artaud demonstra sua teoria.
Sua obra mais conhecida é Os Cenci de 1935, onde ele conta a vida de uma família italiana durante a fase do Renascimento.
Nas décadas de 1940 e 1950, os princípios do surrealismo influenciaram o teatro do absurdo.
Fonte: http://www.suapesquisa.com/surrealismo
Transcrito pelo Discípulo de Artaud às 17h50
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O Teatro da Crueldade
Uma das influências mais decisivas para a evolução do teatro contemporâneo foi a de Antonin Artaud, ator,diretor, cenógrafo e sobretudo crítico e teórico do teatro moderno. Preocupado obsessivamente pela fenomenologia e metafísica da linguagem como centro da experiência dramática, Artaud começou a análise pela crítica severa do teatro europeu. Para ele a experiência teatral a partir de Shakespeare e do teatro elisabetano reduzira-se à experiência poética, restringira-se ao universo da palavra, e deixara de ser um espetáculo vital profundo, aberto às massas, para transformar-se numa atividade cultural circunscrita aos domínios da psicologia e destinada ao deleite das minorias. Contra esse estado de coisas, concebeu ele um teatro de silêncio, de símbolos, magia, gestos e dimensões espaciais, numa idéia fortemente influenciada pelos seus contatos com o teatro oriental e com a tradição da Antigüidade e Idade Média. A um teatro "psicológico" opôs um teatro "metafísico", fundado na idéia da gravidade de uma vivência religiosa e mágica da própria experiência dramática, violento por esta mesma experiência, com a qual o espectador pudesse identificar-se e viver momentos de transe, nos quais se sentisse como que violentado em seu todo orgânico e conduzido por um complexo de forças superiores.
A expressão por ele adotada, Teatro da Crueldade, nada tem a ver com espetáculos de sadismo, referindo-se ao rompimento dos limites abstratos da linguagem para chegar aos seus elementos concretos. Crueldade, nesse contexto, significa o rigor, a decisão, a aplicação implacável, o apetite pela vida. O teatro passaria a ser uma ação mágica, uma criação contínua, uma impetuosa necessidade de inventar, uma profunda integração com a própria vida, em cujo âmbito tudo é cruel: o esforço, a existência ativa, o amor, a morte, a ressurreição, a transfiguração. O autor desse teatro teria de romper com o limites do texto literário, penetrar na cena e movimentar um universo teatral completo e vivo, uma energia poética de vastas perspectivas.
A contribuição de Artaud, embora mal assimilada e pouco compreendida por muitos, teve uma influência extraordinária sobre alguns dos principais nomes e correntes da dramaturgia mundial. Há naturalmente os que desprezam seu trabalho por achá-lo excessivamente teórico e pouco comprometido com a realidade social. E há também os que deformam seus conceitos e indicações para a transformação da ordem cultural existente e instauração de uma nova gramática formal, em espetáculos meramente anárquicos. Na verdade, a obra de Artaud, tal como a Brecht e de qualquer outro grande teórico da arte cênica, não pode ser tomada como um todo homogêneo e sim como um processo, dentro do qual seu pensamento evoluiu de uma visão extremadamente metafísica para a crítica precisa da sociedade burguesa e da cultura ocidental.
Fonte: http://www.dionisius.hpg.ig.com.br/tea_mundo/tea_cruel.htm
Transcrito pelo Discípulo de Artaud às 17h43
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Espetáculo montado baseado na obra de Artaud
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Tereza Amoêdo: sob todos os aspectos, um espetáculo para Artaud
Elaine Pauvolid
A peça de um ato e de apenas uma artriz-diretora foi montada a partir de texto produzido por Luiz Horácio Rodrigues, dramaturgo, jornalista e escritor. Não há sequer uma palavra em toda apresentação, apenas um grito, apenas música de Alex Saba, apenas luz, apenas Tereza Amoêdo encarnando dor em estado bruto.
Citemos Antonin Artaud em Teatro e seu duplo (tradução de Teixeira Coelho, editora Max Limonad, 1987): "O fato de existirem chaves profundas no pensamento e da ação segundo as quais todo espetáculo é lido é coisa que não diz respeito ao espectador em geral, que não se interessa por isso. Mas de todo modo é preciso que estas chaves ‘estejam aí’, e isso nos diz respeito".
As chaves apontadas por Antonin Artaud estão presentes na peça em questão. O ser encarnado pela atriz, o ser humano, prossegue sempre massacrado. Através do massacre da personagem vemos nosso massacre como espécie. Isto só é possível pelas tais chaves escondidas na peça. Não as vemos e nos afetam profundamente. O tema é a opressão sofrida pelo ser humano, em última instância, caracterizada pela dor.
Encarnando o ritual de catarse, apresenta a crueldade por sua outra via, produzindo efeito libertário. De alguma forma, doendo impulsionados pela ilusão produzida pela obra artística, deixamos nossa dor noutro lugar, libertamo-nos do existente por trás dela, seu alimento.
Esta era a função do teatro grego e é esta a função do teatro de Bali a que Artaud refere-se com freqüência no livro referencial. Citemo-lo: " não se devolverá ao teatro os poderes específicos de ação antes de sua linguagem [do teatro] lhe ser devolvida", esta linguagem requisitada, Tereza Amoêdo atualiza.
O espetáculo representa também um recorte de humanidade no cenário da arte contemporânea onde todos parecem super-heróis. Onde precisa-se vencer a dor, mostrar-se em combate, dando o exemplo em uma espécie de pedagogia da existência. Tereza não é heroína, sua personagem padece, luta e é vencida pelo caos moderno, cuja filosofia não se diferencia da grande regra da natureza animal, a lei do mais forte. No caso da apresentação, a personagem perde, é tragada, engolida, não sem lutar, não sem berrar.
Quanto ao aspecto técnico, Tereza demonstra apuro. Não realiza movimentos jamais feitos, nem tampouco seu corpo representa algo sobre-humano - itens a gerar pontos, rotineiramente, a favor de peças contendo expressão corporal como linguagem. No entanto, alguns momentos valem por toda uma peça conduzida pelos maiores coreógrafos e diretores vivos. São o reflexo das tais chaves mencionadas acima.
Tereza dirige a si mesma com assistência de Luiz Horácio Rodrigues, comunicando-se inteiramente com a platéia e consigo mesma. Não há uma palavra em toda cena, apenas um grito, apenas música e luz - iluminação de Luísa Friese.
Lembre-se que este tipo de teatro não costuma atrair, atualmente, grandes multidões como antes acontecia na Grécia. Talvez porque o público ainda não conheça seu efeito instantâneo de catarse, talvez nem mesmo conheça a catarse e então temos que citar Antonin Artaud quando em seu primeiro manifesto do Teatro da Crueldade, acerca do público, fala que antes de falar deste tópico "é preciso que o teatro exista". Se ele pudesse assistir à peça de Tereza, diria que já existe.
Elaine Pauvolid. Poeta. Contato: pauvolid@olimpo.com.br. | Fonte: http://www.revista.agulha.nom.br/ag2amoedo.htm
Transcrito pelo Discípulo de Artaud às 17h35
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O Teatro Político de Antonin Artaud - Parte I
É possível falar em um teatro político de Artaud? Teatro metafísico, teatro alquímico, teatro da crueldade, são definições que o próprio autor propõe, na tentativa de definir e fazer entender suas propostas. Mas, teatro político?
Artaud quer uma revolução, quer mudanças sociais radicais. O teatro para Artaud é um meio para que estas mudanças aconteçam. Erroneamente, suas propostas são muitas vezes entendidas desconectadas de sua visão social e política. Ele, todavia, não tem em vista fins sociológicos imediatistas, nem propostas político-partidárias. Aliás, este foi um dos principais motivos de seu rompimento com os surrealistas[1] quando estes aderiram ao comunismo (ARANTES: 1988: 75).
Artaud “tem consciência dos problemas suscitados pela reificação dos homens e da nítida situação de exploração reproduzida, dia após dia pela máquina capitalista. Tem consciência dos problemas sociais-políticos e econômicos de seu tempo” (FELÍCIO, 1996: 115). Artaud não mergulha em sua insanidade em uma busca mística desconectado da realidade que o cerca. Analisando o capitalismo, reconhece que este não consiste apenas em um modo de produção material, “mas em um modo de produzir a vida” (ARANTES, 1988: 76). Por outro lado, se posiciona também contra o comunismo e o critica por que acredita que este se ocupa das mesmas questões que o capitalismo, apenas propondo a transferência do poder da burguesia para o proletariado, atendo-se à produção material, ao desenvolvimento técnico com fins de melhoria das condições materiais da vida, atingindo assim “apenas as aparências superficiais” .
A revolução artaudiana[2] quer explodir os fundamentos do mundo moderno, subverter pela raiz os hábitos de pensamento atuais e, em suas palavras, “descentrar o fundamento atual das coisas” (ARTAUD in ARANTES, 1988: 76 e 77). Constatando a decadência da sociedade ocidental, em suas idéias, costumes e valores, propõe uma “revolução inútil”, que não atinge o imediato, mas que trabalha no âmbito virtual, questionando e minando os valores reinantes. Vera Lúcia Felício destaca isto ao afirmar que:
“Se o teatro é o meio escolhido por Artaud, é por que ele crê ser o único meio que age diretamente sobre a consciência das pessoas, portanto, um instrumento ativo e enérgico, capaz de revolucionar a ordem social existente. (...) O Teatro da Crueldade só pode crer numa revolução que atinja destrutivamente a ordem e a hierarquia dos valores tradicionalmente aceitos como absolutos” (FELÍCIO, 1996: 113).
A subversão destes valores é fundamental para Artaud. Ele reconhece que a confusão e a ruptura fragmentam o indivíduo e a sociedade. Por isto acredita que a revolução precisa ocorrer “pela cultura, na cultura”.
No prefácio de O teatro e seu duplo, ele reflete sobre a cultura contrapondo duas diferentes formas de compreendê-la. Uma, dominante na sociedade ocidental, coloca a cultura como algo separado da vida, como um sistema de conhecimentos, informações, instrução. Esta visão de cultura traz consigo uma noção elitista e dualista – o culto e o inculto – a idéia da “aquisição” de cultura que remete a uma desconexão. “Como se de um lado estivesse a cultura e do outro a vida; e como se a verdadeira cultura não fosse um meio refinado de compreender e exercer a vida” (ARTAUD, 1993: 04).
Em oposição a esta “idolatria da cultura”, ele apresenta a idéia da “cultura em ação”, que se torna no homem como que um novo órgão, uma espécie de segundo espírito e que rege as ações mais sutis, o espírito presente nas coisas. Artaud acredita na existência de forças latentes capazes de se manifestarem pelo totemismo que o Ocidente não mais considera. Esta cultura é a autêntica, segundo ele, e as relaciona com os manas (que surgem pela identificação mágica). A cultura funde-se com a vida e a vida com a cultura, promovendo a integração do ser humano. Assim, a dicotomia corpo e espírito do ocidente, presente na primeira definição de cultura, não encontra espaço porque não distingue as forças da natureza, das divindades e do ímpeto humano que dá sentido à vida. “A verdadeira cultura pressupõe uma modificação integral, mágica, do ser no homem, numa união entre corpo e espírito, em que este último é cultivado no corpo que, por sua vez, trabalha o espírito” (FELÍCIO, 1996: 121).
A revolução de Artaud passa por uma transformação na maneira da sociedade compreender a vida, de dicotômica a fusional. O idealismo artaudiano pretende transformações nas estruturas mais profundas, na forma da sociedade viver suas relações, não como indivíduos isolados, mas como um ser integrado ao social. Neste sentido quer uma recuperação das raízes pré-modernas, quando a vida não podia ser compreendida separada da religião. Desta mesma forma, não há para Artaud separação da arte e da vida, pois estas estão envolvidas pela mesma força metafísica. A arte não se encontra como algo a se apreciar, mas como algo a ser vivido.
Ele afirma que “no ponto de desgaste a que chegou nossa sensibilidade, certamente precisamos antes de mais nada, de um teatro que nos desperte: nervos e coração.” (ARTAUD, 1993: 81). Através do teatro, Artaud pretende abalar sensorial e espiritualmente o espectador, desenvolver sua sensibilidade, colocá-lo em um estado de percepção mais apurado para transformar a consciência. Os nervos e o coração não estão dissociados, mas são veículo um para o outro. “Não se separa o corpo do espírito, nem os sentidos da inteligência” (ARTAUD, 1993: 83). Felício, em seus estudos sobre Artaud, destaca a existência destes dois aspectos no Teatro da Crueldade: um físico, exterior (gesto, imagens, sons), que é direcionado ao impacto pela sensibilidade do público e outro religioso ou filosófico, interior, constituído pelas idéias metafísicas.
Transcrito pelo Discípulo de Artaud às 17h29
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O Teatro Político de Antonin Artaud - Parte II
Artaud aponta várias formas objetivas para que o teatro atinja os nervos do público, mas sublinha veementemente que, caso haja estabelecimento de uma linguagem teatral fixa, esta arruinará o teatro, pois a cristalização de uma forma consiste, segundo ele, no impedimento do movimento da cultura, do espírito. É o rompimento da linguagem que toca a vida e impede a idolatria.
O espaço é uma exigência do teatro, não apenas por que reúne todas as linguagens, mas por ser um fator que age sobre a sensibilidade nervosa. Artaud não o compreende apenas fisicamente em suas dimensões, mas pretende utilizar seus “subterrâneos” . O espaço é que permite o encontro e o acordo entre os homens. É nele que a cultura, na forma compreendida por Artaud, ocorre, sendo um impulsionador dos deslocamentos e movimentos culturais. A linguagem espacial assume a função idêntica de transgredir o mundo já estabelecido – também por isso o espaço teatral assume uma composição diferente dos espaços teatrais convencionais. Ele abandonando a literatura se propõe a mergulhar na “cultura corpórea-gestual-musical” (FELÍCIO, 1996: 121), ou seja, na cena que é realmente a atividade e acontecimento teatral – manifestação da cultura. O teatro de Artaud quer fazer o espaço e fazê-lo falar, criando poesia no espaço através de imagens materiais, simbólicas.
Embora pareçam utópicas as pretensões de Artaud de transformar a sociedade, seus escritos tiveram grande influência no trabalho e experimentações de inúmeros grupos e encenadores, muitos com desejos semelhantes de revolução social, outros mais preocupados com experimentações estéticas e formais. Fato é, que não há como pensar o teatro de Artaud, sem levar em conta a cultura e a organização da sociedade e de seus valores. Negligenciar isto, é negligenciar as motivações de imersão no universo mítico pretendida pelo teórico, de compreender a função social do teatro. Contrário a muitos encenadores e reformadores do teatro no início do século XX, que tiverem interesses mais estéticos ou ambicionavam interferências políticas mais diretas, Artaud pretendia realizar sua revolução considerando sua época e o contexto no qual está imerso, propondo uma nova ordem, ou talvez seja melhor dizer, retomando uma antiga ordem mítica, ontológica.
No início do século XXI, nos defrontamos com valores sociais e econômicas bastante complexos, que possuem muitas relações com a época de Artaud, e igualmente nos deparamos com os pensamentos deste influente teórico do teatro, permanecendo ainda o desafio, irrealizável em sua totalidade, de um teatro indissociável da vida da sociedade. Gilbert Durand, pesquisador do Círculo de Eranos[3], afirma que a apreensão da realidade é marcada pela simbolização da vivência, e que os aspectos simbólicos e míticos do homem, não são de forma alguma inferiores ao pensamento racionalizado e à linguagem, justamente por que estão na origem destas, sendo anterior a elas (SCHEFFLER, 2002: 04). Artaud, pensando o teatro e a sociedade, caminhava solitário por esta forma de compreender a arte e a vida, e pode ser melhor compreendido quando nos deparamos com outros estudiosos que partilhavam um mesmo olhar, como é o caso de Gilbert Durand e do Círculo de Eranos. Estes estudos possuem diversos pontos em comum com as propostas artaudianas, fornecendo uma interessante epistemologia para o estudo de Artaud.
BIBLIOGRAFIA:
ARANTES, Urias Corrêa. Artaud: teatro e cultura. Campinas, Editora da UNICAMP: 1988.
ARTAUD, Antonin. O teatro e seu duplo. São Paulo, Martins Fontes: 1993.
FELÍCIO, Vera Lúcia. A procura da lucidez em Artaud. São Paulo, Perspectiva: 1996.
SCHEFFLER, Ismael. A hermenêutica simbólica como possibilidade epistemológica para o estudo do espaço teatral. Periscope Magazine, nº 4, ano 2, dezembro de 2002, http://www.casthalia.com.br/casthaliamagazine/ano4/ismael_scheffler/scheffler.htm
Fonte: http://www.espacoacademico.com.br/031/31cscheffler.htm
Transcrito pelo Discípulo de Artaud às 17h28
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ANTONIN ARTAUD: LOUCURA E LUCIDEZ, TRADIÇÃO E MODERNIDADE - CLAUDIO WILLER - PARTE I
Em O Teatro e seu duplo, obra na qual apresenta o conjunto de idéias que constituíram o teatro da crueldade, Antonin Artaud defende uma linguagem que pudesse exprimir objetivamente verdades secretas. Uma linguagem mais concreta que a utilizada para falar da esfera psicológica: mudar a finalidade da palavra no teatro é servir-se dela em um sentido concreto e espacial, combinando-a com tudo o que o teatro contém de especial e de significação em um domínio concreto; é manipulá-la como objeto sólido, capaz de abalar as coisas inicialmente no ar, e em seguida em um domínio mais misterioso e mais secreto.
Por isso, o teatro da crueldade é um ritual, valorizando o gestual e o objeto, trocando o lugar de palco e platéia. Em outras de suas obras, como Heliogábalo, O anarquista coroado e Viagem ao país dos Taraumaras, criou uma recíproca desse teatro, uma espécie de semiologia onde as coisas têm significado e formam discursos. A leitura de Viagem ao país dos Taraumaras, e do que escreveu depois sobre o ritual do peiote, mostra que esse rito do sol negro foi, para ele, a mais autêntica realização do teatro da crueldade.
Em uma das Cartas de Rodez, quando esteve internado nessa instituição psiquiátrica em 1945, Artaud responde a Henry Parisot, que lhe havia mandado o Jabberwocky (Jaguadarte) de Lewis Carroll (obra na qual é inventada a palavra-baú) perguntando-lhe se não queria traduzi-la. Diz que não, que Lewis Carroll não tem uma visão fecal do ser, e o acusa de haver roubado um texto seu: tendo escrito um texto como Letura d'Eprahi Talli Tetr Fendi Photia O Fotre Indi, não posso tolerar que a sociedade atual (…) só me deixe traduzir um outro feito a sua imitação. (…) Aqui estão alguns experimentos de linguagem aos quais a linguagem desse livro antigo devia assemelhar-se. Mas que só podem ser lidos se escandidos em um ritmo que o próprio leitor deverá achar para entender e para pensar:
ratara ratara ratara atara tatara rana otara otara katara otara retara kana ortura ortura konara kokona kokona koma kurbura kurbura kurbura kurbata kurbata keyna pesti anti pestantum putara pest anti pestantum putra
Há outros exemplos dessa linguagem em Artaud, em sua fase pós-internamento. Mas ele não a inventou: o uso de fonemas não-semantizados é arcaico. Octavio Paz, no ensaio Leitura e Contemplação (publicado na coletânea Convergências), trata das glossolálias, o "falar línguas", expressão de estados alterados de consciência por gnósticos e outras doutrinas místicas. Analisa o modo como reaparecem em autores modernos – Huidobro, Khlebnikov, Fargue, Michaux, Hugo Ball e Artaud: na história da poesia moderna, reaparece a mesma obsessão dos gnósticos e dos cristãos primitivos, dos montanistas e dos xamãs da Ásia e da América: a busca de uma linguagem anterior a todas as linguagens, e que restabeleça a unidade do espírito. Embora intraduzível para tal ou qual significação, essa linguagem não carece de sentido. Mais exatamente: aquilo que enuncia não está antes, mas depois da significação. Não é um balbuciar pré-significativo: é uma realidade ao mesmo tempo física e espiritual, audível e mental, que transpôs os domínios do significado e os incendiou.
O paralelo entre a escrita de Artaud e idéias gnósticas e herméticas também é apontado por Susan Sontag, comentando as passagens, em Artaud, nas quais as palavras são tratadas primariamente como material (som): elas têm um valor mágico. A atenção ao som e forma das palavras, como distinta de seu significado, é um elemento do ensinamento cabalístico do Zohar, que Artaud estudou na década de trinta. Isso é evidente em textos como Para acabar com o julgamento de Deus, onde afirma que toda verdadeira linguagem é ininteligível, e exemplifica com glossolálias: potam am cram/ katanam anankreta/ karaban kreta/ tanamam anangteta/ konaman kreta/ e pustulam orentam/ taumer dauldi faldisti. Para acabar… é um catecismo de heresias. Afirma que onde cheira a merda, cheira a ser, perguntando, em uma suprema blasfêmia: É deus um ser?/ Se o for, é merda. São blasfêmias ditas a partir de um ponto/ em que me vejo forçado/ a dizer não,/ NÃO/ à negação. A liberdade está no avesso: Então poderão ensiná-lo a dançar às avessas/ como no delírio dos bailes populares/ e esse avesso será/ seu verdadeiro lugar.
Transcrito pelo Discípulo de Artaud às 17h20
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ANTONIN ARTAUD: LOUCURA E LUCIDEZ, TRADIÇÃO E MODERNIDADE - CLAUDIO WILLER - PARTE II
Semelhante escrita do avesso é uma sobrevivência de idéias gnósticas, nascidas nas areias da Palestina, inventadas por um concorrente do Cristo, Simão o Mago, para depois se disseminarem em remotos séculos I e II, por seitas que buscavam formar religiões secretas, principalmente no Egito, convivendo com o neoplatonismo e o hermetismo. Os crentes na criação do mundo por uma divindade decaída, o Demiurgo, e na salvação humana pela obtenção de um conhecimento resultando, não da adesão, mas da luta contra Deus. Para alguns, pela adoção de um código moral às avessas. Desapareceram diante da organização teológica e política do cristianismo, perseguidos e combatidos como hereges, para reaparecer na Idade Média como bogomilos e, no século XIII, como cátaros da Provença, exterminados militarmente. A inversão da história do Jardim do Éden, na qual a serpente é portadora, não da perdição, porém da sabedoria, além de se manter em cultos demoníacos da Idade Média e da Renascença, aparece na criação literária como adesão ao avesso, fascinação romântica e pós-romântica pelo desafio, não apenas à ordem social, mas universal. A permanência da heresia como sombra da História é a expressão da revolta contra um mundo e uma sociedade onde tudo está errado, fora do lugar. Por isso, engendrado por um ente maligno, o Demiurgo. William Blake, que acreditava em um Deus ruim e opressor, em conflito com um Deus bom, é um escritor antecipado pela Gnose, mais que pelo paganismo. Assim como, a seu modo, Baudelaire, Nerval, Lautréamont, Jarry e Artaud.
Cosmogonias invertidas, glossolálias e pensamento mágico também comparecem nos delírios, nos surtos psicóticos. Diferentes sociedades em diferentes épocas tiveram suas representações da loucura e lugares para o louco. É possível mostrar que no xamã, sacerdote tribal primitivo, os três lugares são o mesmo. Confundem-se também em William Blake, que conversava com profetas bíblicos. A loucura de Artaud consistiu em ele ter sido um personagem de si mesmo, identificando obra e vida. Inspirado em seus textos, praticou-os na vida real, como no famoso episódio, relatado por Anais Nin, da palestra (O Teatro e a peste, de O teatro e seu duplo), em que declarou que não iria falar da peste, porém mostrá-la, encarnando o empesteado, sofrendo, contorcendo-se até cair no chão, de forma tão chocante que esvaziou o auditório. Ou nas ocasiões em que afirmou que Paris era Roma antiga e ele, Artaud, era Heliogábalo.
Identificar linguagem e realidade, querer que o símbolo se torne efetivo, ativo no plano da realidade, é pensamento mágico. E também pensamento poético, busca da anulação do tempo. A confusão entre criação, idéias típicas do sintoma e temas de uma tradição esotérica chega a nós pela corrente subterrânea da história; passa a ser um dos modos da tradição da ruptura, para utilizar a expressão criada por Octavio Paz (em Os filhos do barro). Em seus elogios e homenagens a Lautréamont, Nerval e Poe, Artaud se assume como representante dessa tradição. Reescreve uma história da literatura como história de escritores loucos, que culmina nele.
É especialmente fascinante como Artaud, depois de viajar ao México para tomar peiote entre os Taraumara, de ter uma crise ao voltar e ser internado, produziu textos literariamente superiores, pela força, ritmo e riqueza de imagens. Onde se pode ver como antagônicos, em muitos escritores, um componente psicótico, destrutivo, e um componente criador, em Artaud ambos interagiam; um alimentou o outro. Sua obra culmina, em 1947, com Van Gogh, o suicidado pela sociedade, esplêndido poema em prosa onde reitera que louco é o homem que a sociedade não quer ouvir, e que é impedido de enunciar certas verdades intoleráveis. Afirma que um dos meios de a sociedade burguesa marginalizar artistas videntes é através de bruxarias. Insiste em que seu internamento é obra de uma conjuração, pois, se o deixassem solto, mudaria o mundo. Caracteriza Van Gogh como vítima solidária do mesmo enfeitiçamento.
Assumindo a ótica de Artaud, distinguir entre categorias como normalidade e loucura, ou entre arte, sintoma e delírio, é uma falsa questão. É inevitável, ao discuti-lo, adotar a perspectiva e o tipo de epistemologia defendida por Michel Foucault na parte final de As Palavras e as Coisas, e, a meu ver, de modo mais consistente pelo surrealismo. Consiste em pensar o delírio, tanto quanto o sonho e a criação poética, como meios de conhecimento. Assim como a linguagem científica abre campos de conhecimento, a linguagem não-instrumental, não-discursiva, abre outros campos de experiência do real. Entender o inconsciente como consciência não-discursiva ajuda a esclarecer a modernidade de Hölderlin, Nerval, Lautréamont, Corbière, Germain Nouveau, Jarry e Artaud. Permitindo a intervenção do inconsciente, rompem com o discursivo e com a sociedade: rompem com o discurso da sociedade. Fazem arte revolucionária, pela radicalidade da rebelião individual, e por sua crítica à realidade: por isso falo em tomá-la como meio de conhecimento, e não apenas como algo a ser interpretado, como objeto do paradigma clínico ou de uma teoria literária. A inserção consciente de Artaud na tradição da ruptura acentua o caráter universal de sua contribuição, por mais que esta se tenha manifestado de modo particular, irredutível, que não permite uma escola ou doutrina de seguidores, apesar da sua influência em tantos campos da modernidade: teatro, poesia, contracultura, antipsiquiatria. É universal por expressar contradições fundamentais, entre o sujeito e o mundo que lhe é exterior, o imaginário e o real, o absoluto e o contingente, o poético e o prosaico. |
Fonte: http://triplov.com/surreal/artaud_willer.html
Transcrito pelo Discípulo de Artaud às 17h20
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