Napoleão

(Napoléon, 1927)
» Direção: Abel Gance
» Origem: França/Itália/Suécia
» Gênero: Drama/Guerra
» Duração: 222 minutos
» Trailer: Clique aqui
» Site Oficial: ?

» Sinopse: Considerado por muitos um filme muito à frente de seu tempo, esta é uma cinebiografia de Napoleão Bonaparte, mostrando sua vida desde a escola, passando pela Revolução Francesa e pela invasão da Itália em 1797, onde o filme pára. Na realidade, esta é a primeira parte de uma série de filmes, porém o diretor apenas conseguiu dinheiro para a primeira parte.

» Elenco Principal: Abel Gance, Albert Dieudonné, Alexandre Koubitzky, Antonin Artaud, Edmond Van Daële, Gina Manès, Suzanne Bianchetti, Vladimir Roudenko



Transcrito pelo Discípulo de Artaud às 05h01
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O Martírio de Joana d'Arc

(Passion de Jeanne d'Arc, La, 1928)
» Direção: Carl Theodor Dreyer
» Origem: França
» Gênero: Drama
» Duração: 110 minutos
» Site Oficial: ?

» Sinopse: O filme, obra-prima do diretor Carl Theodor Dreyer, mostra os inúmeros sofrimentos pelos quais passou a mártir Joana d'Arc.

» Elenco Principal: André Berley, Antonin Artaud, Eugene Silvain, Maria Falconetti, Maurice Schutz, Michel Simon



Transcrito pelo Discípulo de Artaud às 04h58
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Segurança Pública
A liquidação do Ópio

Tenho a intenção declarada de encerrar o assunto de uma vez por todas, para que não venham mais nos encher a paciência com os assim chamados perigos da droga.
Meu ponto de vista é nitidamente anti-social.
Só há uma razão para atacar o ópio. Aquela do perigo que seu uso acarreta ao conjunto da sociedade.
Acontece que este perigo é falso.
Nascemos podres de corpo e alma, somos congenitamente inadaptados, suprimam o ópio: não suprimirão a necessidade do crime, os cânceres do corpo e da alma, a inclinação para o desespero, o cretinismo inato, a sífilis hereditária, a fragilidade dos instintos; não impedirão que haja almas destinadas a seja qual for o veneno, veneno da morfina, veneno da leitura, veneno do isolamento, veneno do onanismo, veneno dos coitos repetidos, veneno da arraigada fraqueza da alma, veneno do álcool, veneno do tabaco, veneno da anti-sociabilidade. Há almas incuráveis e perdidas para o restante da sociedade. Suprimam-lhes um dos meios para chegar à loucura: inventarão dez mil outros. Criarão meios mais sutis, mais selvagens; meios absolutamente desesperados. A própria natureza é anti-social na sua essência – só por uma usurpação de poderes que o corpo da sociedade consegue reagir contra a tendência natural da humanidade.
Deixemos que os perdidos se percam: temos mais o que fazer que tentar uma recuperação impossível e ademais inútil, odiosa e prejudicial. Enquanto não conseguirmos suprimir qualquer uma das causas do desespero humano, não teremos o direito de tentar a supressão dos meios pelos quais o homem tenta se livrar do desespero.
Pois seria preciso, inicialmente, suprimir esse impulso natural e oculto, essa tendência ilusória do homem que o leva a buscar um meio, que lhe dá a idéia de buscar um meio para fugir às suas dores.
Além do mais, os perdidos são perdidos por sua própria natureza; todas as idéias de regeneração moral de nada servem; há um determinismo inato; há uma incurabilidade definitiva no suicídio, no crime, na idiotia, na loucura; há uma incrível corneação entre os homens; há uma fragilidade do caráter; há uma castração do espírito.
A afasia existe; a tabes dorsalis existe; a meningite sifilítica, o roubo, a usurpação. O inferno já é deste mundo e há homens que são desgraçados, fugitivos do inferno, foragidos destinados a recomeçar eternamente sua fuga. E por aí afora. O homem é miserável, a carne é fraca. Há homens que sempre se perderão. Pouco importa os meios para perder-se: a sociedade nada tem a ver com isso. Demonstramos – não é? – que ela nada pode, que ela perde seu tempo, que ela apenas insiste em arraigar-se na sua estupidez.
Aqueles que ousam encarar os fatos de frente sabem – não é verdade? – os resultados de uma possível proibição no álcool. Uma superprodução da loucura: cerveja com éter, álcool carregado com cocaína vendido clandestinamente, o pileque multiplicado, uma espécie de porre coletivo. Em suma, a lei do fruto proibido. A mesma coisa o ópio.
A proibição, que multiplica a curiosidade, só serviu aos rifiões da medicina, do jornalismo, da literatura. Há pessoas que construíram fecais e industriosas reputações sobre sua pretensa indignação contra a inofensiva e ínfima seita dos amaldiçoados da droga (inofensiva porque ínfima e porque sempre uma exceção), essa minoria de amaldiçoados em espírito, alma e doença.
Ah! Como o cordão umbilical da moralidade está bem atado neles! Desde a saída do ventre materno – não é? – jamais pecaram. São apóstolos, descendentes de sacerdotes: só falta saber como se abastecem da sua indignação, quanto levam nessa, o que ganham com isso. E, de qualquer forma, essa não é a questão.
Na verdade, o furor contra o tóxico e as estúpidas leis que vêm daí:
1º É inoperante contra a necessidade do tóxico que saciada ou insaciada, é inata à alma e induziria a gestos decididamente anti-sociais mesmo se o tóxico não existisse.
2º Exaspera a necessidade social do tóxico e o transforma em vício secreto.
3º Agrava a doença real e esta é a verdadeira questão, o nó vital, o ponto crucial:
Desgraçadamente para a doença, a medicina existe.
Todas as leis, todas as restrições, todas as campanhas contra os estupefacientes somente conseguirão subtrair a todos os necessitados da dor humana, que têm direitos imprescritíveis no plano social, o lenitivo dos seus sofrimentos, um alimento que para eles é mais maravilhoso que o pão, e o meio, enfim, de reingressar na vida. Antes a peste que a morfina, uiva a medicina oficial; antes o inferno que a vida.
E é aqui que a canalhice do personagem abre o jogo e diz a que vem: em nome, pretende ele, do bem coletivo. Suicidem-se, desesperados, e vocês, torturados de corpo e alma, percam a esperança. Não há mais salvação no mundo. O mundo vive dos seus matadouros.
E vocês, loucos lúcidos, sifilíticos, cancerosos, meningíticos crônicos, vocês são incompreendidos. Há um ponto em vocês que médico algum jamais entenderá e é este ponto, a meu ver, que os salva e torna augustos, puros maravilhosos: vocês estão além da vida, seus males são desconhecidos pelo homem comum, vocês ultrapassam o plano da normalidade e daí a severidade demonstrada pelos homens, vocês envenenam sua tranqüilidade, corroem sua estabilidade. Suas dores irreprimíveis são, em essência, impossíveis de serem enquadradas em qualquer estado conhecido, indescritíveis com palavras. Suas dores repetidas e fugidias, dores insolúveis, dores fora do pensamento, dores que não estão no corpo nem na alma mas que têm a ver com ambos. E eu, que participo dessas dores, pergunto: quem ousaria dosar nosso calmante? Em nome de que clareza superior, almas nossas, nós que estamos na verdadeira raiz da clareza e do conhecimento? E isso, pela nossa postura, pela nossa insistência em sofrer. Nós, a quem a dor fez viajar por nossas almas em busca de um lugar mais tranqüilo ao qual pudéssemos nos agarrar, em busca da estabilidade no sofrimento como os outros no bem-estar. Não somos loucos, somos médicos maravilhosos, conhecemos a dosagem da alma, da sensibilidade, da medula, do pensamento. Que nos deixem em paz, que deixem os doentes em paz, nada pedimos aos homens, só queremos o alívio das nossas dores. Avaliamos nossas vidas, sabemos que elas admitem restrições da parte dos demais e, principalmente, da nossa parte. Sabemos a que concessões, a que renúncias a nós mesmos, a que paralisias da sutileza nosso mal nos obriga a cada dia. Por enquanto, não nos suicidaremos. Esperando que nos deixem em paz.

Texto extraído do livro “Escritos de Antonin Artaud” da Coleção Rebeldes e Malditos, L&PM Editores, 1983 e sucessivas reedições.
Seleção, tradução, prefácio e notas de Claudio Willer



Transcrito pelo Discípulo de Artaud às 04h50
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O suicídio é uma solução?
Antonin Artaud

Não, o suicídio ainda é uma hipótese. Quero ter o direito de duvidar do suicídio assim como de todo o restante da realidade. É preciso, por enquanto e até segunda ordem, duvidar atrozmente, não propriamente da existência, que está ao alcance de qualquer um, mas da agitação interior e da profunda sensibilidade das coisas, dos actos, da realidade. Não acredito em coisa alguma à qual eu não esteja ligado pela sensibilidade de um cordão pensante, como que meteórico e ainda assim sinto falta de mais meteoros em acção. A existência construída e sensível de qualquer homem me aflige e decididamente abomino toda realidade. O suicídio nada mais é que a conquista fabulosa e remota dos homens bem-pensantes, mas o estado propriamente dito do suicídio me é incompreensível. O suicídio de um neurasténico não tem qualquer valor de representação, mas sim o estado de espírito de um homem que tiver determinado seu suicídio, suas circunstâncias materiais e o momento do seu desfecho maravilhoso. Desconheço o que sejam as coisas, ignoro todo o estado humano, nada no mundo se volta para mim, dá voltas em mim. Tolero terrivelmente mal a vida. Não existe estado que eu possa atingir. E certamente já morri faz tempo, já me suicidei. Me suicidaram, quero dizer. Mas que achariam de um suicídio anterior, de um suicídio que nos fizesse dar a volta, porém para o outro lado da existência, não para o lado da morte? Só este teria valor para mim. Não sinto apetite da morte, sinto apetite de não ser, de jamais ter caído neste torvelinho de imbecilidades, de abdicações, de renúncias e de encontros obtusos que é o eu de Antonin Artaud, bem mais frágil que ele. O eu deste enfermo errante que de vez em quando vem oferecer sua sombra sobre a qual ele já cuspiu faz muito tempo, este eu fraco, apoiado em muletas, que se arrasta; este eu virtual, impossível e que todavia se encontra na realidade. Ninguém como ele sentiu a fraqueza que é a fraqueza principal, essencial da humanidade. A de ser destruída, de não existir.



Transcrito pelo Discípulo de Artaud às 04h11
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Carta as Escolas de Buda
Antonin Artaud

Vós que não estais na carne, que sabeis em que ponto de sua trajetória carnal, de seu vai e vem insensato, a alma encontra o verbo absoluto, a palavra nova, a terra interior. Vós que sabeis como alguém dá voltas no pensamento e como o espirito pode salvar-se de si mesmo. Vós que sois interiores de vós mesmos, que já não tendes um espirito ao nível da carne: aqui há mãos que não se limitam a tomar, cérebros que vêem alem de um bosque de tetos, de um florescer de fachadas, de um povo de rodas, de uma atividade de fogo e de mármores. Ainda que avance esse povo do ferro, ainda que avancem as palavras escritas com a velocidade da luz, ainda que avancem os sexos um até o outro com a violência de um canhonaço, o que haverá mudado nas rotas da alma, o que nos espasmos do coração, na insatisfação do espirito?

Por isso, lança às águas todos esse brancos que chegam com suas cabeças pequenas e seus espíritos já manejados. È necessário agora que esses cachorros nos ouçam. Não falamos do velho mal humano. Nosso espirito sofre de outras necessidades que as inerentes à vida. Sofremos de uma podridão, a podridão da Razão. A lógica Europa esmaga sem cessar o espirito entre os martelos de dois fins opostos, abre o espirito e volta a fechà-lo. Porem agora, o estrangulamento chegou ao cumulo, já faz demasiado tempo que padecemos sob seu jugo.

O espirito é maior que o espirito, as metamorfoses da vida da vida são múltiplas. Como vós, rechaçamos o progresso: vinde, deitemos abaixo nossas moradas. Que continuem ainda nossos escribas escrevendo, nossos jornalistas cacarejando, nossos críticos resmungando, nossos agiotas roubando com seus moldes de rapina, nossos políticos arengando e nossos assassinos legais incubando seus crimes em paz. Nós sabemos - sabemos muito bem - o que è a nossa vida. Nossos escritores, nossos pensadores, nossos doutores, nossos charlatães coincidem nisto: em frustar a vida.

Que todos estes escribas cuspam sobre nós, que nos cuspam por costume ou por mania, que nos cuspam porque são castrados de espirito, porque não podem perceber os matizes, os barros cristalinos, as terras giratórias onde o espirito elevado dos homens se transforma sem cessar. Nós captamos o pensamento melhor. Vinde. Salvai-nos destas larvas. Inventai para nós novas moradas.

NOTA

Em 1920, com idade de 24 anos, Antonin Artaud chega à Paris com a intenção de consagrar-se ao teatro. Liga-se então, com Charles Dullin, que acaba de fundar o "Théâtre de I’Atelier", participando como ator, decorador e realizador. Faz já tempo que Artaud se interessa pelas atividades do grupo surrealista. Em 1923, no atelier de André Masson, entra em contato com Robert Desnos, Michel Leiris e Miró, quem pouco tempo mais tarde lhe apresentam a André Breton e ao grupo surrealista, que acaba de organizar-se ao redor do Primeiro Manifesto. É a época do aparecimento da revista "A Revolução Surrealista", órgão do movimento. Artaud adere e se torna um dos principais porta-vozes da ideologia. "Apesar do pouco tempo transcorrido desde que Artaud havia se unido a nós, ninguém, como ele, soube entregar-se tão espontaneamente ao serviço da causa surrealista... Ele possuía uma espécie de furor que não perdoava, por assim dizer, nenhuma das instituições humanas, mas que podia, ocasionalmente, terminar em gargalhada. Por ele passava todo o desafio da juventude. Não surpreende que este furor, pelo enorme poder de contágio que possuía, influenciou profundamente a trajetória surrealista (André Breton, "Entretiens", Gallimard, 1952).

No começo do ano de 1925, o grupo funda uma "Central de Investigações Surrealista", cujo objetivo inicial é: "recolher todos os dados possíveis no que diz respeito às formas que pode assumir a atividade inconsciente do espirito". Artaud, ao assumir pouco depois a direção, se esforça por converter o objetivo inicial num, centro de "reordenamento" da vida.

"O surrealismo, mais que crenças, registra uma certa ordem de repulsões. É antes de tudo um estado de espirito. Não determina receitas". O grupo lhe confia então à direção do n 3 da revista "A Revolução Surrealista", que até este momento estava a cargo de Péret e Naville.

Artaud toma a iniciativa de redigir a maior parte dos textos que se publicam neste número, dando um giro inesperado ao tom da publicação. "Aqui a linguagem se desprende de tudo o que podia dar-lhe um caráter ornamental, se entrega à "onda de sonhos" de que falou Aragón, e surge cheia e resplandecente à maneira de uma arma... (Breton, op.cit.)".

Seus textos impregnados de um ardor insurreacional, estão redigidos em forma de cartas abertas e dirigidos contra aquelas instituições ou seus representantes frente aos quais o surrealismo começa a organizar o seu clamor de protesto. Para a presente edição agrupamos as cartas sob o título geral de "Cartas aos Poderes".

Desde o primeiro texto (Carta Aberta), que figura como editorial da revista, uma voz profética e exaltada por uma violência que inquietava à seus próprios companheiros, lança uma ataque frontal contra o "espirito" lógico e seus "poderes" de opressão, que de século em século tem instrumentado a liquidação do homem. Nas cartas seguintes fixa os termos de sua denúncia contra este "espirito" fabricado nas universidades, reivindicado nos hospícios e "transfigurado" em Roma. Fica o chamado à um oriente dialético, através das cartas ao Dalai-Lama e as Escolas de Buda, onde entrevemos - à luz do romantismo surrealista - um eco do "Viagem ao Oriente" nerveliano.

Porém não pode apressar-se em reconhecer aqui um oriente histórico, senão melhor um "oriente interior", negação para onde se transfere tudo o que o ocidente não é. Vinte anos mais tarde, a voz de Artaud, convertida em grito, depois de sua passagem pelo hospício de Rodez, descarregará com a violência do anátema, todas as suas baterias contra este oriente e seu "espírito", que como todo o "espírito" se aplicou em torturar à vida. Estas cartas junto com "L’Ombilic des Limbes" e "Le pése-nerfs", representam o começo de uma desgarradora experiência de um mergulho em sua interioridade que "está aberta pelo ventre, e por debaixo acumula uma intraduzível e sombria ciência, cheia de mares subterrâneos, de edifícios côncavos e de uma agitação congelada".

ARTAUD, Antonin. Cartas aos Poderes. Porto Alegre: Editorial Villa
Martha, 1979. (Coleção Surrealistas - Vol. 1)



Transcrito pelo Discípulo de Artaud às 02h18
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Carta aos Reitores das 
Universidades Européias

Antonin Artaud

Senhor Reitor

Na estreita cisterna que chamais "Pensamento" os raios do espirito apodrecem como montes de palhas.

Basta de jogos de palavras, de artifícios de sintaxe, de malabarismos formais; precisamos encontrar - agora - a grande Lei do coração, a Lei que não seja uma Lei, uma prisão, senão um guia para o espirito perdido em seu próprio labirinto. Alem daquilo que a ciência jamais poderá alcançar, ali onde os raios da razão se quebram contra as nuvens, esse labirinto existe, núcleo para o qual convergem todas as forcas do ser, as ultimas nervuras do Espirito. Nesse dédalo de muralhas movediças e sempre transladadas, fora de todas as forcas conhecidas de pensamento, nosso Espirito se agita, espreitando seus mais secretos e espontâneos movimentos, esses que tem um caráter de revelação, esse ar de vindo de outras partes, de caído do céu.

Porem a raça dos profetas esta extinta. A Europa se cristaliza, se mumifica lentamente dentro das ataduras de suas fronteiras, de suas fabricas, de seus tribunais, de suas Universidades. O Espirito "gelado" range entre as laminas minerais que o oprimem. E a culpa è de vossos sistemas embolorados, de vossa lógica de dois - e - dois - são - quatro; a culpa è vossa, Reitores, apanhados na rede de silogismos. Fabricais engenheiros, magistrados, médicos a quem escapam os verdadeiros mistérios do corpo, as leis cósmicas do ser falsos sábios, cegos para o alem, filósofos que pretendem reconstruir o Espirito. O menor ato de criação espontânea constitui um mundo mais complexo e mais revelador que qualquer sistema metafísico.

Deixa-nos, pois, Senhores sois tão somente usurpadores. Com que direito pretendeis canalizar a inteligência e dar diplomas de Espirito?

Nada sabeis do Espirito, ignorai suas mais ocultas e essências ramificações, essas pegadas fosseis, tão próximas de nossas próprias origens, esses rastros que às vezes logramos localizar nos jazigos mais escuros de nosso cérebro.

Em nome de vossa própria lógica, vos dizemos: a vida empesta, senhores. Contemplai por um instante vossos rostos, e considerai vossos produtos. Através das peneiras de vossos diplomas, passa uma juventude cansada, perdida. Sois a praga de um mundo, Senhores, e boa sorte para esse mundo, mas que pelo menos não se acredite à testa da humanidade.

ARTAUD, Antonin. Cartas aos Poderes. Porto Alegre: Editorial Villa
Martha, 1979. (Coleção Surrealistas - Vol. 1)



Transcrito pelo Discípulo de Artaud às 02h18
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Mensagem ao Dalai Lama
Antonin Artaud

Somos teus mui fieis servidores, oh Grande Lama! Concede-nos, envia nos tua luz numa linguagem que nossos contaminados espíritos europeus possam compreender, e se necessário modifica nosso Espirito, cria nos um espirito voltado inteiramente para esses cumes perfeitos onde o Espirito do Homem já não sofre.

Cria nos um Espirito sem hábitos, um espirito firmado verdadeiramente no Espirito, ou um Espirito com hábitos mais puros - ou teus - se eles são aptos para a liberdade.

Estamos rodeados de papas decrépitos, de profissionais da literatura, de críticos, de cachorros: nosso Espirito está entre cachorros, que pensam imediatamente ao nível da terra, que irremediavelmente pensam no presente.

Ensina-nos, Lama, a levitação material dos corpos, a como evitarem de serem retidos na terra.

Porque tu bens sabes que a libertação transparente das almas, a que liberdade do Espirito no Espirito aludimos. Oh Papa aceitável! Oh papa do Espirito verdadeiro!

Com o olho interior te contemplo, Oh Papa, no ponto mais alto do interior!

È nesse interior onde me assemelho a ti, eu, germinação, idéia, linguagem, levitação, sonho, grito, renuncia a idéia, suspenso entre as formas e a espera só do vento.

ARTAUD, Antonin. Cartas aos Poderes. Porto Alegre: Editorial Villa
Martha, 1979. (Coleção Surrealistas - Vol. 1)



Transcrito pelo Discípulo de Artaud às 02h17
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Mensagem ao Papa
Antonin Artaud

Não és tu o confessionário, oh Papa! Somos nós; compreende-nos, e que os católicos nos compreendam.

Em nome da Pátria, em nome da Família, incentivas a venda das almas e a livre trituração dos corpos.

Entre nossa alma e nós mesmos, temos que percorrer muitos caminhos, que venham a interpor se teus vacilantes sacerdotes e esse acumulo de aventuradas doutrinas com que se nutrem todos os castrados do liberalismo mundial. A teu deus católico e cristão que como os outros deuses concebeu todo o mal )2 ptos(

1. Tu o meteste no bolso.

2. Nada temos que fazer com teus cânones, índex, pecados, confessionários, clerigalham.

Pensamos em outra guerra, uma guerra contra ti, Papa, cachorro.

Aqui o espirito se confessa ao espirito. Da cabeça aos pés de tua farsa romana, o ódio triunfa sobre as verdades imediatas da alma, sobre essas chamas que consomem o próprio espirito. Não ha Deus, Bíblia ou Evangelho, ano ha palavras que detenham ao espirito. Não estamos no mundo. Oh Papa confinado no mundo! Nem a terra, nem Deus falam de ti.

O mundo e o abismo da alma! Papa aleijado, Papa alheio a alma. Deixa nos nadar em nossos corpos, deixa nossas almas em nossas almas. Não necessitamos de tua espada de claridades.

ARTAUD, Antonin. Cartas aos Poderes. Porto Alegre: Editorial Villa
Martha, 1979. (Coleção Surrealistas - Vol. 1)



Transcrito pelo Discípulo de Artaud às 02h17
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Carta aos Diretores de Asilos de Loucos
Antonin Artaud

Senhores:

As leis, os costumes, concedem-lhes o direito de medir o espirito. Esta jurisdição soberana e terrível, vocês a exercem segundo seus próprios padrões de entendimento.

Não nos façam rir. A credualidade dos povos civilizados, dos especialistas, dos governantes, reveste a psiquiatria de inexplicáveis luzes sobrenaturais. A profissão que vocês exercem esta julgada de antemão. Não pensamos em discutir aqui o valor dessa ciência, nem a duvidosa existência das doenças mentais. Porém para cada cem pretendidas patogenias, onde se desencadeia a confusão da matéria e do espirito, para cada cem classificações, onde as mais vagas são também as únicas utilizáveis, quantas tentativas nobres se contam para conseguir melhor compreensão do mundo irreal onde vivem aqueles que vocês encarceraram?

Quantos de vocês, por exemplo, consideram que o sonho do demente precoce ou as imagens que o perseguem são algo mais que uma salada de palavras? Não nos surpreende ver até que ponto vocês estão empenhados em uma tarefa para a qual só existe muito poucos predestinados. Porém não nos rebelamos contra o direito concedido a certos homens - capazes ou não - de dar por terminadas suas investigações no campo do espirito com um veredicto de encarceramento perpétuo.

E que encerramento! Sabe-se - nunca se saberá o suficiente - que os asilos, longe de ser "asilos", são cárceres horríveis onde os reclusos fornecem mão-de-obra gratuita e cômoda, e onde a brutalidade è norma. E vocês toleram tudo isso. O hospício de alienados, sob o amparo da ciência e da justiça, è comparável aos quartéis, aos cárceres, as penitenciarias. Não nos referimos aqui as internações arbitrárias, para lhes evitar o incomodo de um fácil desmentido. Afirmamos que grande parte de seus internados - completamente loucos segundo a definição oficial - estão também reclusos arbitrariamente. E não podemos admitir que se impeça o livre desenvolvimento de um delírio, tão legitimo e lógico como qualquer outra serie de idéias e atos humanos. A repressão das reações anti-sociais, em principio, è tão quimérica como inaceitável. Todos os atos individuais são anti-sociais. Os loucos são as vitimas individuais por excelência da ditadura social. E em nome dessa individualidade, que è patrimônio do homem, reclamamos a liberdade desses forcados das galés da sensibilidade, já que não se está dentro das faculdades da lei condenar à prisão a todos que pensam e trabalham. Sem insistir no caráter verdadeiramente genial das manifestações de certos loucos, na medida de nossa capacidade para avalià-las, afirmamos a legitimidade absoluta de sua concepção da realidade e de todos os atos que dela derivam.

Esperamos que amanha de manha, na hora da visita medica, recordem isto, quando tratarem de conversar sem dicionário com esses homens sobre os quais - reconheçam - só tem a superioridade da forca.

ARTAUD, Antonin. Cartas aos Poderes. Porto Alegre: Editorial Villa
Martha, 1979. (Coleção Surrealistas - Vol. 1)



Transcrito pelo Discípulo de Artaud às 02h14
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Carta Aberta
Antonin Artaud

Abandonai as cavernas do ser. Vinde o espírito se revigora fora do espírito. Já é hora de deixar vossas moradas.

Cedei ao Omni-Pensamento. O Maravilhoso está na raiz do espírito. Nós estamos dentro do espírito, no interior da cabeça. Idéias, lógica, ordem, Verdade (com V maiúscula), Razão: tudo isso oferecemos ao nada da morte. Cuidado com vossas lógicas, senhores, cuidado com vossas lógicas; não imaginais, até onde pode nos levar nosso ódio à lógica.

A vida, em sua fisionomia chamada real, só se pode determinar mediante um afastamento da vida, mediante uma suspensão imposta ao espírito; porém a realidade não está aí. Não venham pois, enfastiar em espírito a nós que apontamos para certa realidade supra-real, a nós que há muito tempo não nos consideramos do presente e somos para nós como nossas sombras reais.

Aquele que nos julga ainda não nasceu para o espírito, para este espírito a que nos referimos e que está, para nós, fora do que vós chamais espírito. Não chamem demasiado nossa atenção para as cadeias que nos unem à imbecilidade petrificante do espírito. Nós apanhamos uma nova besta.

Os céus respondem a nossa atitude de absurdo insensato. O hábito que tendes todos vós de dar às costas às perguntas não impedirá que os céus se abram no dia estabelecido, e que uma nova linguagem se instale no meio de vossas imbecis transações. Queremos dizer: das transações imbecis de vossos pensamentos.

Existem signos no Pensamento. Nossa atitude de absurdo e de morte é da maior receptividade. Através das fendas de uma realidade em frente não viável, fala um mundo voluntariamente sibilino.

ARTAUD, Antonin. Cartas aos Poderes. Porto Alegre: Editorial Villa
Martha, 1979. (Coleção Surrealistas - Vol. 1)



Transcrito pelo Discípulo de Artaud às 02h12
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Estou inaugurando o Artaudiando, o local onde você saberá tudo sobre Antonin Artaud, um dos homens mais loucos do Teatro.
Tentarei colocar o máximo de informações sobre sua vida e obra para que possamos compartilhar dessa experiência.
Vamos enlouquecer juntos com Artaud!!!

"Quero ter o direito de duvidar do suicídio assim como de todo o restante da realidade." (Antonin Artaud)

Transcrito pelo Discípulo de Artaud às 01h40
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